domingo, 16 de agosto de 2015

Polícia Racista?




O folder da Polícia Militar de São Paulo em que o desenho de um homem negro simboliza um criminoso não pode ser considerado um caso isolado de racismo diante da proporção entre o número de negros e brancos mortos em ação policial. Segundo estudo da Universidade Federal de São Carlos (Ufscar), a taxa de negros mortos pela PM de SP é três vezes maior que a de brancos.

A pesquisa “Filtragem racial na seleção policial de suspeitos: segurança pública e relações raciais” analisou informações das Polícias Militares do Distrito Federal, Minas Gerais, Rio de Janeiro e de São Paulo. Neste estado, o índice de mortes em ação policial em um grupo de 100 mil habitantes é de 1,4 negros para 0,5 brancos, apesar do percentual dos autodeclarados negros ser menos da metade da população.

Outro estudo, do professor e oficial da PM de Pernambuco Geová da S. Barros, constatou que 65,03% dos policiais entrevistados percebem que os pretos e pardos são priorizados nas abordagens.

Esses dados revelam que a tendência a associar negros a criminosos não está restrita ao panfleto de gosto e eficácia duvidosos distribuído em Diadema. Inclusive, um documento revelado em 2013 orientava os militares de serviço no bairro Taquaral, região nobre de Campinas, a focar as abordagens “especialmente a indivíduos de cor parda e negra com idade aparentemente de 18 a 25 anos”.

Na época em que trabalhei na assessoria de comunicação da Secretaria de Segurança Pública do Espírito Santo vi inúmeros boletins de ocorrências com relatos de abordagens bem sucedidas graças ao chamado “tirocínio policial”, que pode ser definido como um olhar mais apurado do agente conquistado ao longo dos anos de trabalho nas ruas, algo como um “faro” ou “tino policial”.

É um critério preciso como os utilizados pelos jurados das escolas de samba. Pode levar a apreensões e prisões, mas também origina abordagens equivocadas que provocam desde situações constrangedoras até a morte de inocentes.

Por ano, em média, acontecem no Brasil 30 mil homicídios de jovens com idades entre 15 e 29 anos, dos quais a maioria, 77%, são negros. Dentro desse percentual, certamente há vítimas de forças policiais ou agentes de segurança cujas atuações são influenciadas por preconceitos diversos, dos quais um dos mais comuns é o que associa a criminalidade à pele negra.

Se em vez do tirocínio as instituições de segurança pública privilegiassem o raciocínio, estas estatísticas seriam aproveitadas para a implementação de ações de combate à criminalidade que não produzam injustiças raciais e patacoadas como o impresso de Diadema.





Fonte: Marcos Sacramento



sábado, 15 de agosto de 2015

O maior consumidor de drogas do Mundo!



De acordo com um relatório da UNODC, escritório para drogas e crime da ONU, o Brasil consome quatro vezes mais cocaína que a média mundial. Estimativas da ONU mostram que 1,75% da população adulta no Brasil consome cocaína, enquanto que o índice mundial é de 0,4%.

Os mercados dos Estados Unidos e da Europa diminuíram na última década. O Brasil, ao contrário, se tornou o maior centro de distribuição da droga no mundo inteiro. Nosso país foi citado em 56 países como ponto de trânsito de cocaína, revelando que somos a maior base de exportação da droga.

Considerando todas as drogas, apenas o Paquistão supera o Brasil, com 178 países do mundo o citando local de trânsito da heroína.

"Por causa de sua posição geográfica, o Brasil tem um papel estratégico no tráfico de cocaína. Entra no Brasil por avião, por terra (carros, caminhões e ônibus), por rio (barcos que cruzam o Amazonas), antes de ser enviada para o exterior, principalmente para a Europa, tanto de forma direta como via África", declara o relatório.

Segundo a ONU, o Brasil, junto do Chile e da Costa Rica, puxam para cima o consumo de cocaína na América do Sul, onde as taxas são três vezes maiores que a média mundial. O número de usuários na região pulou de 1,8 milhões de pessoas, em 2010, para 3,3 milhões em 2012.

Considerando todas as drogas ilícitas que há, a ONU considera que haja 246 milhões de usuários do mundo, o que equivale a 5% da população entre 15 e 64 anos.









Fonte: Ione Aguiar/Brasil Post













sexta-feira, 14 de agosto de 2015

Introvertido ou Narcisista?

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Você já deve ter conhecido alguém que adora comentar sobre como é introvertido. Mas a que ponto esse papo sobre introversão passa da linha e começa a virar uma preocupação exagerada com a própria característica? Pois cientistas sabem que muitos introvertidos são, na verdade, narcisistas disfarçados - foi até cunhado um termo para essa característica psicológica: o narcisista 'encoberto'.

Pense em alguém que acredita que está sempre sendo subestimado, que acha que suas qualidades incríveis vão permanecer sem serem notadas - mas que não fica falando isso a todos os que conhece. Normalmente, narcisistas encobertos levam as coisas para o lado pessoal, especialmente críticas, e ficam ressentidas quando outras pessoas falam com elas sobre outros problemas.

O psicólogo Jonathan Cheek criou alguns marcadores para identificar narcisistas encobertos. Quanto mais você concordar com esses tópicos, maiores são as chances de você ser um deles:

- Eu fico muito preocupado com meus interesses e, com frequência, esqueço de me preocupar com outros.

- Acho meu temperamento diferente da maioria das outras pessoas.

- Quando entro em uma sala cheia de gente eu sinto que todos os olhos estão sobre mim e fico com vergonha. 

Cheek afirma que o último item, especialmente, é uma fantasia narcisista. "Quem é você e porque todos estariam te olhando? Isso é acreditar que o mundo está prestando mais atenção a você do que provavelmente está". Se você olhar o teste completo de Cheek (em inglês), vai perceber que muitos itens podem ser relacionados à introversão. Isso porque se você for introvertido são grandes as chances de ser narcisista (embora essa relação não seja verdadeira em todos os casos). Entenda desta forma: nem todos os introvertidos são narcisistas, mas todos os narcisistas disfarçados são introvertidos E narcisistas.

Apesar da característica não ser muito conhecida, há estudos sobre ela desde a década de 1930. Ela só não figura em mais pesquisas por ser mais difícil de ser identificada do que o narcisismo comum. É mais caracterizada por paranóia do que por uma personalidade chamativa. Faz com que a pessoa seja mais arrogante, porém mais desconfiada - somo se não estivesse sendo tratada da forma que merece o tempo todo. Como George Costanza, de Seinfeld. Mas, claro, alguns psicólogos argumentam que todos os narcisistas são vulneráveis, de certa forma. Afinal, são pessoas viciadas em se sentirem especiais.

Em um estudo feito com 600 pessoas, Cheek percebeu que narcisistas introvertidos e extrovertidos têm duas coisas em comum: eles são arrogantes e têm ideias fantasiosas sobre sua grandiosidade. No entanto, enquanto narcisistas extrovertidos podem ser bons líderes, não há muitos lados bons em se ser um narcisista introvertido.

Você se identificou com o narcisista disfarçado? Há algumas coisas que você pode fazer para amenizar a característica: fazer coisas das quais você gosta, em vez de fazer coisas que te façam aparecer. Ter responsabilidade sobre suas ações. Na prática, minimizar o ego e se conectar com o resto do mundo. E se você tem crises de ansiedade social também, saiba que treinar o olhar para fora de si pode ajudar a perceber que nem tudo é sobre você.








Fonte: LUCIANA GALASTRI/Galileu

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

Google - Lá se encontra realmente tudo?




Se um novo ditado popular fosse criado, poderia ser algo como "se não está no Google, não existe".
Mas a afirmação gera dúvidas. O que fazer quando você não encontra o que procura no Google?

O gigante de tecnologia criado pelos americanos Larry Page e Sergey Brin no final da década de 1990 indexa mais de 1 bilhão de páginas da web.
Mas, às vezes, quando não conseguimos encontrar exatamente o que queremos usando a ferramenta de busca mais famosa do mundo, temos de recorrer a buscadores especiais, não tão conhecidos mas muito úteis. Veja abaixo alguns deles.

Informação científica
Um dos grandes problemas da web é separar quais são as informações relevantes.
Às vezes o usuário pode estar interessado em encontrar informação especializada ou científica, que tenha veracidade garantida. Ao procurar no Google, ele poderá navegar durante horas por páginas de economistas, curandeiros, biólogos entre outros, tudo misturado.

Uma forma de encontrar pesquisas sérias sobre matérias acadêmicas é navegar em portais que compilam esse tipo de informação especializada, vinda de pesquisadores de universidades e outras instituições famosas.
Para informações acadêmicas de qualidade e evitar páginas de charlatões ou curandeiros, o melhor é recorrer ao Social Research Network.

Para quem se interessa por ciências sociais, é possível buscar estudos de economia, direito, humanidades etc, no portal Social Science Research Network, que, todos os anos, é listado entre os melhores do Ranking Web of Repositories.

Se o assunto são as ciências naturais, os estudos de melhor qualidade podem ser encontrados, por exemplo, em scienceresearch.com, que usa uma "tecnologia de busca federada" para oferecer bons resultados em tempo real, afirma o site.
Também é possível encontrar informações especializadas nas pesquisas da América Latina graças ao site Red de Repositorios Latinoamericanos, coordenado pela Universidad de Chile.

Buscador de tuítes
As redes sociais já são um elemento-chave na internet. Os estudos mostram que cada vez mais elas consomem a maior parte do tempo que passamos conectados.
Milhões de mensagens são enviadas em todas as direções, todos os dias e um bom exemplo é o Twitter.
Segundo os dados da rede de microblogging, são postados cerca de 500 milhões de tuítes diariamente e tentar encontrar uma mensagem específica no meio de tudo isso pode ser uma dor de cabeça.

Para resolver o problema existe o Topsy, um buscador que permite localizar tuítes postados a partir do ano de 2006.
É possível buscar tuítes sobre um tema específico, de um usuário em particular, incluir palavras-chave etc. E a versão básica é gratuita.

Fotos livres de pagamento de direitos autorais
O Google tem milhões de fotos: grandes, pequenas, bonitas, feias, de gosto duvidoso e dos temas mais variados.
O problema é que, se alguém precisa de fotos para um blog pessoal, para uma apresentação na empresa ou para um trabalho universitário, pode não ser fácil encontrar fotos livres de direitos autorais. Usar estas fotos sem a liberação do autor pode infringir leis e custar muito dinheiro.
Para buscar fotos livres de direitos o buscador creativecommons.org é muito útil pois rastreia imagens com licenças gratuitas de organizações independentes.
Mas, não é apenas isto. O site também oferece a busca de músicas, vídeos e textos também livres.

Privacidade
Uma das grandes polêmicas envolvendo o Google é a privacidade. Esta ferramenta faz com que deixemos informações em suas buscas ou nas contas do Gmail.
Privacidade é um dos problemas envolvendo o Google e o Gmail
Se a pessoa busca uma marca de sapatos, logo vão aparecer propagandas de sapatos por toda parte. E sobre o que você escreve em seus e-mails... melhor deixar a própria companhia falar.

"As pessoas que utilizam o correio eletrônico hoje em dia não devem se surpreender se seus e-mails são processados pelo provedor de corrio eletrônico no decorrer da entrega", admitiu a companhia em um julgamento pela acusação de espionagem de usuários nos Estados Unidos.
Uma alternativa para navegar com confidencialidade é o buscador duckduckgo.com, que garante que não registra a informação do usuário.

Criado em 2011 pelo cientista Gabriel Weinberg, a empresa garante que cifra a transmissão de dados e não usa cookies para coletar informações sobre a localização do usuário. E não revela buscas.

Buscas no passado
Outros problema na hora de fazer buscas na internet é que, às vezes, você busca algo que encontrou uma vez e, quando vai procurar de novo, foi apagado.
Para resolver isto existe o buscador waybackmachine que, na verdade, é um arquivo de internet que oferece estes conteúdos desaparecidos.
Esta ferramenta existe desde 1996 e, neste período, já arquivou mais de 40 bilhões de páginas.
Com este buscador é possível navegar ao passado e ver como era um site, e o que ele dizia, em um momento específico da história.

Outras ferramentas permitem a busca de páginas do passado
Para isto, basta colocar o nome da página e escolher os arquivos disponíveis em um calendário que identifica os momentos que se fez uma cópia da mesma para a posteridade.

Cuidado com as fotos!
Geralmente buscamos fotos escrevendo algumas palavras chave que nos mostram as imagens relacionadas. Mas, e quando precisamos saber quando uma foto foi publicada antes ou não?
Para isto existe o Tin Eye, uma ferramente que promete justamente este tipo de busca gratuitamente: coloque uma foto ou o link da foto e o buscador informa onde encontrá-la ou se já apareceu antes (inclusive com modificações) graças a uma tecnologia de reconhecimento digital.

Os motivos para este tipo de busca podem ser muitos: se é um fotógrafo, pode querer verificar se alguém usou suas fotos sem permissão; se é um leitor mais crítico de notícias, pode comprovar que nenhum meio de comunicação mostre em uma notícia atual uma foto de algo que, na verdade, já aconteceu há muito tempo.






Fonte: BBC








terça-feira, 11 de agosto de 2015

ECSTASY - O que é isso?





O Ecstasy foi originalmente desenvolvido pela companhia farmacêutica Merck em 1912. Na sua forma original, era conhecido como “MDMA”. Este foi usado em 1953 pelo Exército dos Estados Unidos em testes de guerra psicológica, e então ressurgiu nos anos 60 como um medicamento de psicoterapia para “inibições” mais baixas.1 Não foi senão nos anos 70 que o MDMA surgiu como uma droga de festas.

No início da década de 80, o MDMA estava  sendo promovido como “a última coisa na contínua pesquisa para a felicidade através da química”, e a “droga in” para muitas festas de fim de semana. Ainda legal em 1984 o MDMA estava  sendo vendido sob o nome de marca “Ecstasy”, mas em 1985, a droga tinha sido banida por motivos de segurança.



Desde os finais dos anos 80, o Ecstasy tornou–se um abrangente termo de “marketing” para os traficantes de drogas a vender drogas “tipo Ecstasy” que podem, de fato, conter muito pouco ou nenhum MDMA. E embora o próprio MDMA possa produzir perigosos efeitos adversos, aquilo que hoje em dia é chamado de Ecstasy pode conter uma ampla mistura de substâncias – desde LSD, cocaína, heroína, anfetaminas e metanfetaminas até veneno para ratos, cafeína, substâncias para destruir os vermes nos cães, etc. Apesar dos engraçados logótipos que os traficantes põem nos comprimidos, isto é o que torna o Ecstasy particularmente perigoso, um consumidor nunca sabe realmente o que está consumindo. Os perigos são aumentados quando os consumidores que aumentam a dose procuram uma euforia anterior, não sabendo que podem estar  consumindo uma combinação de drogas totalmente diferente.

O Ecstasy vem mais comumente na forma de comprimidos, mas pode ser também injetado e consumido de outras formas: Ecstasy líquido é na verdade GHB (gama hidroxibutirato), um depressivo do sistema nervoso – uma substância que também pode ser encontrada nos materiais de limpeza de esgotos, polidor do chão ou solventes desengordurantes.






Fonte: Fundação para um mundo livre de droga







segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Rico não paga imposto!



O leão do imposto de renda mia feito gato com os ricos, como atestam dados recém-divulgados pela própria Receita Federal. Os maiores milionários a prestar contas ao fisco, um grupo de 71.440 brasileiros, ganharam em 2013 quase 200 bilhões de reais sem pagar nada de imposto de renda de pessoa física (IRPF). Foram recursos recebidos por eles sobretudo como lucros e dividendos das empresas das quais são donos ou sócios, tipo de rendimento isento de cobrança de IRPF no Brasil.

Caso a bolada fosse taxada com a alíquota máxima de IRPF aplicada ao contracheque de qualquer assalariado, de 27,5%, o País arrecadaria 50 bilhões de reais por ano, metade do fracassado ajuste fiscal arquitetado para 2015 pelo ministro da Fazenda, Joaquim Levy. Detalhe: os 27,5% são a menor alíquota máxima entre todos os 116 países que tiveram seus sistemas tributários pesquisados por uma consultoria, a KPMG.

A renda atualmente obtida pelos ricos sem mordidas do IRPF – 196 bilhões de reais em 2013, em números exatos – tornou-se protegida da taxação há 20 anos. No embalo do Consenso de Washington e do neoliberalismo do recém-empossado presidente Fernando Henrique Cardoso, o governo aprovou em 1995 uma lei instituindo a isenção.




Fonte: DCM

O Brasil é um país racista?


 

Seis anos atrás, quando Daniele de Araújo descobriu que estava grávida, saiu afoita pela viela suja de sua modesta casa em um dos morros do Rio de Janeiro. A área é controlada por traficantes de drogas e ela subia a passos largos. Daniele precisava alcançar um lugar cuja magnitude pudesse fazer ecoar alto e claramente seu pedido a Deus: que lhe desse uma menina, saudável, mas acima de tudo branca.

Daniele sabe sobre os efeitos da genética: tem uma mãe branca e um pai negro, irmãs que podem passar por brancas e um irmão de pele escura como ela. “Sou realmente negra”, diz. Seu marido, Jonatas dos Prazeres, também tem pais das raças branca e negra, mas sua pele é clara. Quando se apresentou para o serviço militar o oficial escreveu no formulário: branco.

E quando seu bebê nasceu, o olhar de Daniele foi de alívio: a pequena Sarah Ashley era rosa como os lençóis que a envolviam. Melhor ainda, ao crescer, ficou claro que Sarah tinha cabelos lisos e não “cabelo ruim” – como são universalmente chamados, no Brasil, os cabelos encaracolados dos negros.

Hoje, Sarah Ashley tem cachos morenos caindo sobre suas pequenas costas e que são a grande alegria na vida de sua mãe. O tom de pele da pequena está entre os tons de pele de seus pais – mas clara o suficiente para que a registrassem como branca, exatamente como esperavam. (Muitos documentos oficiais no Brasil perguntam sobre “raça ou cor”, junto com outras informações básicas de identificação).

Daniele e Jonatas mantêm as fotos de seu casamento de 2005 em um álbum com capa de veludo vermelho, guardado na única prateleira da sala. As fotos, que chamam a atenção pelo brilho, mostram membros da família com uma dúzia de diferentes tons de pele, de braços dados e faces plissadas em sorrisos largos para os retratos posados. Por todo o país encontram-se álbuns com fotos similares nas salas de estar. Um terço dos casamentos no Brasil é inter-racial (dizem ser a maior taxa do mundo. No Canadá, apesar da enorme diversidade encontrada em cidades como Vancouver e Toronto, a taxa é abaixo e 5%). Essa estatística é a mais óbvia evidência de como raça e cor no Brasil são vivenciadas diferentemente de outras partes do mundo.

Mas a diversidade de cores não consegue disfarçar uma verdade fundamental, diz Daniele: há uma hierarquia e os brancos estão no topo dela.

Muitas coisas estão mudando no país. Daniele deixou a escola quando adolescente para trabalhar como doméstica – praticamente a única opção de trabalho para mulheres com uma pele escura como a dela. Mas agora tem um emprego na área de assistência médica e uma casa própria, coisas que jamais poderia imaginar quinze anos atrás. Mesmo assim, diz: “Isso é Brasil!”. E não há nenhuma preciosidade aí. Negro é belo, mas branco é simplesmente mais fácil. Mesmo a vida da classe média pode ser uma luta por aqui. E os pais de Sarah Ashley querem que a vida de sua filha seja facilitada.

A trajetória da história do Brasil do colonialismo, escravidão, regime ditatorial, seguida por uma tumultuada mudança social, produziu um país que é culturalmente homogêneo e cromaticamente muito diversificado. A identidade nacional de um Brasil racialmente mixado é um orgulho – mais que qualquer país na Terra, dizem os brasileiros. Menos discutida, porém, é a desigualdade racial generalizada, igualmente visível em todos os restaurantes repletos de patrões brancos e garçons negros, em todo prédio onde o porteiro negro indica o elevador de serviço para o visitante negro.

A experiência brasileira contrasta marcadamente com a forma como essas questões são abordadas nos Estados Unidos. Seria inimaginável aqui um tiroteio em massa como o ocorrido em Charleston, na Carolina do Sul, EUA, alegadamente deflagrado por um homem da supremacia branca. Ao mesmo tempo, seria inimaginável também, aqui, um discurso da presidente convidando o país a enfrentar sua desigualdade racial.

O que aconteceu com Rachel Dolezal – uma mulher branca de olhos azuis, que escolheu passar por negra e foi levada ao pelourinho – é igualmente estranho para o Brasil, onde a identidade racial é sempre diluída e foi deliberadamente subordinada à questão da cor. Muitos brasileiros, de todas as raças, comparam favoravelmente seu país com os EUA, onde a discussão sobre racismo é ostensiva e muitas vezes raivosa.

Ainda assim, a discriminação no Brasil é uma força tão poderosa quanto nos EUA e cobra um alto preço por aqui também. Esse custo assume formas óbvias: por exemplo, o vasto e desproporcional número de jovens negros nas prisões. E outras mais sutis, como as conversas entre Daniele e Jonatas sobre a filha, sobre se ela é branca o ‘suficiente’.

Mas há uma mudança em movimento por aqui também. É lenta, pode ser transitória e é, certamente, frágil.  Mas por isso mesmo está acontecendo, através tanto de reformas institucionais como de escolhas pessoais. Nesse processo, todos estão sendo chamados a questionar os mecanismos e estruturas seculares de construção de identidade, oferecendo às pessoas como Daniele novos caminhos para idealizarem suas vidas.

Ana Maria de la Merced Guimarães sabia, claro, que existiu escravidão no Brasil. Não lhe ensinaram muito sobre o tema na escola há 40 anos. Os rostos negros de seus vizinhos, no entanto, eram uma evidência de que o Brasil tinha raízes na África. Ainda assim, era um assunto sobre o qual as pessoas nunca falavam ou tinham em algum momento comentado.

Ana Maria, que é branca, certamente não pensava sobre isso em 1996, quando decidiu reformar sua casa. Geminada, com telhado de telhas, foi construída há 150 anos em uma rua do Rio embebida pela história da cidade: o samba foi inventado ali e as primeiras celebrações de Carnaval aconteceram bem perto. Ana Maria, proprietária de um pequeno negócio de dedetização, queria transformar a casa em um sobrado para abrigar a família que crescia.

Depois de um dia de escavações para reforçar o alicerce, encontraram ossos aparentemente humanos. “A princípio, pensei que fosse alguma vítima de homicídio”, diz Ana Maria, hoje com 58 anos, do interior frio de sua casa. Seu tom de voz torna-se mais tímido ao lembrar sua inquietação. “E então encontraram mais ossos. E pensei: ‘é um assassino em série!’. Mas eram ossos e mais ossos e pensei: não, não existe crime perfeito a ponto da pessoa matar tanta gente e não ser descoberta”.

A prefeitura foi acionada e designou um especialista para investigar. Ana Maria foi informada que sua casa ficava sobre o antigo Cemitério dos Pretos Novos. Exatamente ali era o local onde jogavam os corpos dos africanos sobreviventes da bruta jornada de travessia do Atlântico, mas morriam antes de serem vendidos no mercado de escravos, que ficava no final daquela rua.

“Chamam de cemitério, mas era uma vala onde os negros eram despejados – apodreciam ali e então eram queimados, remexidos e empurrados para fora do caminho para novos cadáveres serem alojados”, conta ela. “Ninguém era enterrado intacto. Quanto mais aprendia sobre a história, mais revoltada ficava – muitos eram crianças, havia bebês e muitos, muitos, mais de 50 mil, penso”.




Afinal, Ana Maria ficou sabendo que o cemitério foi usado para “enterrar” perto de duas mil pessoas por ano de 1760 até aproximadamente 1830, quando o movimento abolicionista britânico reduziu a entrada de navios negreiros no porto do Rio. Uma geração após, por volta de 1876, a vala comum foi coberta por paralelepípedos e construídas as primeiras fileiras de casas, incluindo a de Ana Maria. “Eles estavam tentando apagar a memória.”
E fizeram um belo trabalho.

Há um projeto de R$ 12 bilhões (US$ 4 bilhões) para restaurar o bairro de Ana Maria, ao longo do Pier Mauá. Lá se vêem prédios comerciais, condomínios e um gigante Museu do Amanhã. Não há, no entanto, um museu do passado – nada mostrando que esse porto um dia serviu como capital global para o tráfico humano.

O Brasil importou mais escravos que qualquer outro país – 20% de todas as pessoas raptadas da África para serem vendidas eram trazidas para cá, uma estimativa de cinco milhões de pessoas, das quais 400 mil foram para os EUA e Canadá. A viagem para o Brasil saía mais barata por conta da proximidade entre África e Brasil e da rota dos ventos, o que significa que os cativos eram mais baratos também. Os donos dos escravos não queriam saber de gastar com alimentação ou cuidar dos raptados – era mais fácil colocá-los para trabalhar até a morte e, então, substituí-los.

Com isso, os escravos tinham uma esperança de vida muito menor no Brasil do que aqueles mandados para os EUA. Eles foram, no entanto, essenciais para o desenvolvimento da economia – nas plantações de açúcar, nas fazendas de café, nas minas de ouro. Mais de 2 milhões de escravos vieram para o Rio. Eram alimentados nas casas de engorda, perto da rua onde mora Ana Maria, antes de serem colocados nus em fila, inspecionados e vendidos nas praças. O Brasil foi o último país a oficialmente abolir a escravidão.

Em 1888, quando a abolição finalmente chegou, havia mais pessoas negras que brancas no Brasil, além de uma grande população de raça mista, como poderia ser descrita.  Esse resultado reflete o estilo de colonização portuguesa, que por 300 anos exportou colonos, em sua maioria homens. No início, tinham relações sexuais com mulheres indígenas, tanto consensuais como forçadas.

Quando a população indígena começou a fugir para o interior em vez de trabalhar nas plantações, ou a morrer por doenças contagiosas, os colonos se voltaram para os escravos e escravas importadas, que eram rotineiramente estupradas pelos seus donos.

Quando a escravidão acabou, membros da elite branca se viram em menor número e ficaram ansiosos. Estavam também atormentados, explica Ivanir dos Santos, ativista negro e educador no Rio. Como poderiam construir uma nação produtiva e próspera se o estoque de cidadãos era descendente de africanos selvagens?, se perguntavam. A solução óbvia, concluíram, era importar melhores genes.

O governo ativamente desencorajou os donos originais dos ex-escravos a dar-lhes trabalho remunerado e lançou um esforço para cortejarem europeus de baixa renda para virem ao país como a nova força de trabalho e com a intenção evidente de embranquecer a população.

“O princípio da primeira república era eugênica, de ‘higiene racial’”, avalia Ivanir. Isso acabou sendo consagrado em uma lei de imigração, que declarava: “A admissão de imigrantes deve obedecer à necessidade de preservar e desenvolver, na composição étnica da população, as características mais convenientes de sua ascendência europeia.”

Ao mesmo tempo em que os ex-donos de escravos estavam determinados a diluir a negritude do país, se puseram a trabalhar em sua própria história.  No mito da criação brasileira, chamam o país de “democracia racial”  – a versão daqui para o chamado “mosaico cultural” no Canadá, ou “melting pot”, como nos EUA (uma metáfora usada para vários fins na língua inglesa e cuja tradução literal é “vaso para misturas”).

Essa história oficial foi construída sob a seguinte ideia: a partir da abolição da escravatura, brasileiros de todas as cores passaram a ser iguais. Afinal, não havia segregação, apartheid ou Jim Crow – uma série de leis de segregação racial, atuante de 1877 até meados de 1966 nos EUA.  A elite brasileira, predominantemente branca, declarou o país singularmente igual e, de fato, pós-racial, encobrindo, assim, as massivas disparidades entre os ex-donos e os escravos recém-libertados, que não tinham educação, terra ou bens.

“Foi uma forma de ‘invisibilização’”, diz Marcelo Paixão, negro, professor de economia na Universidade Federal do Rio de Janeiro. “O discurso dizia não haver raça no Brasil, portanto não temos problemas de raça e não precisamos discutir sobre desigualdade”.

O primeiro censo pós abolição, em 1890, não perguntava sobre a raça das pessoas, mas sobre cor: se eram brancos, marrons, negros, amarelos ou caboclos, uma palavra portuguesa se referindo àqueles com alguma ancestralidade indígena, mais conhecidos como da cor vermelha.  Ao longo dos anos seguintes, a identidade racial foi progressivamente substituída por considerações sobre cor. Em 1976, buscando aprimorar a precisão do censo, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) pesquisou milhares de brasileiros sobre a palavra que eles próprios usavam para definir suas cores, e chegaram ao número de 136. Mencionaram termos como amarelo-queimado, canela e morena-bem-chegada.

De certa forma, foi uma ideologia progressista, nota o professor Marcelo.

Permitiu a nuance em vez de indicadores branqueadores da “pureza racial”. E também resultou em uma cultura genuinamente mista, apesar dessa mistura ser, em parte, resultado da apropriação. Pilares da cultura negra – como o samba e a capoeira, praticada em segredo pelos escravos – foram totalmente absorvidos pela identidade brasileira.

Mas dentro dessa cultura e sociedade, havia uma inevitável hierarquia do que seriam consideradas características raciais. A ideia dominante, propagada pelos brancos, e que acabou também sendo aceita por muitos negros e pessoas de raças mistas, aponta o professor, foi que a parte “branca” da mistura trouxe uma racionalidade europeia, enquanto os negros trouxeram alegria e criatividade, uma perspectiva positiva. Paixão enumera adjetivos e revira os olhos. Quanto mais branco alguém era, mais características “valiosas” a pessoa possuía. Ser mais-para-o-branco aumentava as chances de conseguir emprego e ser melhor remunerado. Ser mais-para-o-branco, em outras palavras, era desfrutar de uma vida mais fácil. O Brasil se tornou o que algumas vezes é chamado de “pigmentocracia”. O professor Marcelo Paixão está entre os poucos cinco por cento de negros do corpo docente da Universidade Federal.

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Ao mesmo tempo, a divisão de poder e riqueza que se fechou em si mesma no tempo da abolição da escravatura nunca foi abordada. Escravos libertos no Brasil eram livres, também, de coisas fundamentais para se criar igualdade: bens, educação e acesso ao capital. Não houve reforma agrária para quebrar as plantações gigantes e dar aos ex-escravos um meio de auto-sustento. No Rio, era negado a ex-escravos o direito de viver na cidade propriamente dita, e acabaram vivendo em rústicas moradias nos morros ao redor da cidade – essa é a sombria origem das favelas, que hoje é parte integrante do cartão postal da cidade.

O legado da escravidão, e o fracasso em abordá-lo, é visível em inúmeras outras formas. O Brasil conquistou enorme progresso social nos últimos treze anos: mais de 30 milhões de pessoas, quase um sexto da população, saiu da linha da pobreza e ingressou na baixa classe média. O impulso veio tanto do aquecimento da economia – movida pela vasta quantidade de petróleo encontrado em campos marítimos, e os altos preços de mercadorias, alimentados pela demanda chinesa – quanto das políticas sociais progressivas, que aumentaram dramaticamente o salário mínimo e realizaram transferências de capital para trazer segurança econômica aos pobres.

Mas esse progresso não atingiu a todos os brasileiros igualmente. Mesmo depois desses treze anos de rápidas mudanças, brasileiros negros e de raça mista continuam a ganhar 42.2 por cento menos que os brancos. Apenas 30%deles terminam o colegial. Os brasileiros negros também morrem mais cedo, e jovens negros do sexo masculino morrem a dramáticas altas taxas, em comparação com os brancos, tipicamente vítimas da violência, normalmente pelas mãos da polícia.

Os vários caminhos do progresso econômico e social serviram apenas para trazer à tona o quão entrincheirada está a hierarquia de raça e cor, que permanece. No último censo de 2010, 51 por cento dos brasileiros identificavam a si mesmos como negros e de raça mista. Mas os corredores do poder mostram algo diferente. Das 381 companhias listadas na BOVESPA, simplesmente nenhuma tem um chefe executivo negro ou de raça mista. Oitenta por cento do Congresso Nacional é branco. Em 2010, um think tank de São Paulo analisou o corpo executivo das 500 maiores empresas brasileiras e descobriu que meros 0.2% eram negros, e somente 5,1 por cento eram de raças mistas.

Até os casamentos inter-raciais são um capítulo à parte. Eles são menos comuns entre as pessoas nas altas faixas de renda, predominantemente brancas, e mais comuns entre os que ganham menos, que são quase totalmente negros e de raça mista. Carlos Antonio Costa Ribeiro, um sociólogo branco da Universidade Federal do Rio de Janeiro que estuda raça e economia, descreve esse quadro como uma barganha: quando casamentos assim acontecem, a pessoa de pele mais escura normalmente tem uma nível educacional mais elevado ou uma renda mais alta ou ambos.  A relação é uma transação econômica – cada pessoa está ganhando mobilidade social, de uma forma ou de outra.

Há também uma espécie de alquimia, explica o professor Ribeiro, das pessoas com herança de raça mista, que foram bem sucedidas nos negócios e na política, e acabaram sendo vistas como brancas, caso do magnata Roberto Marinho. Mesmo nos dois campos nos quais os negros brasileiros são bem sucedidos – esportes e música – essa alquimia consegue promover sua magia negra. O jogador de futebol e fenômeno Neymar da Silva Santos Júnior, que se apresentou como negro quando começou a chamar a atenção no campo, se tornou, na percepção popular, se não branco, certamente não negro.

Foi contra esse longo e complexo pano de fundo que Daniele e Jonatas se encontraram quinze anos atrás, quando ainda adolescentes em uma parte áspera do Rio. Eles saíam com um grupo de garotos e garotas multirraciais e nunca pensaram sobre raça, até a noite em que se beijaram em uma esquina. Jonatas, tímido e atarracado, relembra em uma recente conversa de domingo à tarde, que no minuto em que pousou os olhos naquela menina esguia, sentiu que estava destinada a ela. E não hesitou, mesmo brevemente, em trazê-la para a casa de sua família. (Por que deveria? Seu próprio pai é de pele negra, assim como ela). E comenta que correu tudo bem.

Mas não é exatamente assim que sua mulher relembra o momento. Voltando-se para ele com uma expressão de exagerada surpresa, Daniele diz: “Eles me chamaram de neguinha e todo o tipo de coisa. Eu ouço pessoas te perguntarem: ‘você está com aquela negra?’”

Na casa da família de Daniele, por outro lado, o novo namorado foi recebido de forma diferente. “Eles o parabenizaram”, disse com naturalidade. “Porque eu estava clareando a família, certo? Senti como se estivesse fazendo algo importante.”

Há um custo, para o Brasil, nessa determinação de continuar permitindo que a raça dite as oportunidades: no massivo número de homens negros que se viram na prisão em vez de escolas ou no trabalho e mulheres negras relegadas ao trabalho de domésticas por sucessivas gerações, pois são vistas como se esse fosse o único trabalho capaz de realizarem. Em 2008, José Vicente, Diretor da Universidade da Cidadania Zumbi dos Palmares em São Paulo, calculou que o PIB do Brasil seria 2 por cento maior se os negros fossem ativos participantes na economia. Isso custa a todos, diz o professor Paixão, e, no entanto, os capitães da indústria, que mantêm uma força de trabalho praticamente toda branca, são muito “míopes” para enxergar.

E há, ainda, outro tipo de custo, aquele que vem em momentos de intimidade, como esse entre mãe e filha. Sarah Ashley às vezes senta no colo de Daniele e a abraça. “Queria ser como você”, diz a menina de cinco anos. “Queria que minha pele fosse como a sua – sua pela é linda”. Ao que a mãe gentilmente corrige: “Digo a ela: minha pele é feia, minha cor é feia”.

Daniele claramente luta com as contradições de suas próprias ideias sobre raça. Ela se movimenta com a segurança de uma mulher que sabe que é bela. E como uma cristã evangélica, não quer sugerir que Deus cometeu um erro quando a criou. Mas aquelas verdades sentidas como inatas são às vezes duras de conciliar com o que tem ouvido por toda a vida. Quando estava crescendo, sua mãe, que é branca, dizia coisas como: “te encontrei no lixo”.

“Ela não queria dizer o que disse, exatamente”, consente Daniele. Mesmo assim, sua mãe nunca fez esse tipo de comentário para sua irmã. “Sempre imaginei se era porque ela era mais velha ou porque era mais clara”, lembra. “Acredito ser a pior da pior, a mais feia. Achava que todo mundo ficava olhando para mim”.

Daniele e sua família moram em Nova Iguaçu, uma cidade dormitório que está a apenas 40 quilômetros das palmeiras e areias brancas de Copacabana. Mas poderia ser outro universo. As ruas são terríveis, a polícia aparece apenas para coletar propina e as pessoas vivem em casas rústicas de tijolo, atrás de altos muros. Mas há espaço por aqui e uma chance de construir uma casa como a que ela e seu marido têm – familiares mudam para cá em busca de se elevarem à nova classe média. A avó de Daniele, Nadir de Mattos Correa, mora há apenas duas quadras com suas filhas, Simone e Michelle, tias de Daniele, e suas famílias. Elas vão umas às casas das outras o tempo todo.

Daniele é mais ligada à sua tia Simone Vieira de Lucena, cuja pele é negra como a sua, e que cresceu, como Daniele, como a mais negra de seus multicoloridos irmãos. Daniele normalmente usa o apelido da família para ela: Neguinha.

“Sou a mais negra – foi sempre assim que me chamaram”, diz Simone, 42 anos. Contou que quando era menor suas irmãs disseram à ela que alguém com aquele nariz e cabelo não poderia esperar encontrar um marido. A ideia ficou tão cravada nela não permitia que tirassem foto dela até os 20 anos. Como Daniele, Simone credita à igreja por, de certa forma, ter melhorado a percepção que tem de si mesma e de seu valor. E contou como, em determinado momento, cansou de esperar, inutilmente, que um dia se tornasse mais clara. Ela e sua sobrinha referem-se uma à outra como preta, negra e, algumas vezes, em vez do nome, chamam uma a outra de macaca ou fumaça. E Simone chama Daniele de sua melhor amiga. Elas fazem isso, afirmam, em total estado de afeto. “É diferente”, diz Simone, “quando é entre a gente”.

Quando preencheram o formulário do censo, Simone marcou ‘negra’ no quadrado. Seu marido, Joacinei Araújo de Lucena, 48, que tem pais das cores negra e branca, assim como ela, se define como “pardo” ou “marrom”. E insiste que ele, Joacinei e suas duas crianças, são mistos – nem um, nem outro. E que misto é uma raça por si só. Simone não compra essa. “Não passou por branco é preto,” diz ela normalmente para seus adolescentes. “Se você não é branco, é negro.”







Fonte: Kiko Nogueira