segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

A Internet Agora Vai Ter Dono!

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Serão eles os donos da Internet?

Como você talvez saiba, a Federal Communications Commission, a Anatel dos EUA, decidiu acabar com a chamada “neutralidade da rede”: princípio que obrigava os provedores de internet a tratarem igualmente todos os dados, sem poder discriminar ou privilegiar nada do que passa por suas redes. Os deputados e senadores americanos, que trabalharam a favor da medida, receberam mais de US$ 100 milhões em doações das empresas de telecomunicações, as grandes beneficiadas dessa história (não é só no Brasil, veja você, que corporações compram as graças dos políticos). O fim da neutralidade é a maior mudança da história da internet – que, ao longo dos próximos anos, poderá se transformar em algo radicalmente diferente. E não para melhor.


Porque, a partir de agora, as telecoms passam a ser donas da internet. Elas decidem o que cada pessoa poderá acessar, como e quantas vezes fará isso. E, ao exercer esse poder, controlam o destino da rede. Suponha, por exemplo, que você tenha uma cota de dados para usar durante o mês – como já acontece nos planos de celular, e as telecoms desejam fazer com a banda larga fixa. Só que determinados sites e apps não contam, ou seja, você pode usá-los à vontade sem descontar da sua franquia de dados. De quebra, eles abrem muito mais rápido. É lógico que você irá acessar esses sites e apps, e não outros. E isso tem uma consequência econômica óbvia. As empresas de internet que fizerem acordos com as telecoms, pagando o que elas pedirem (e obedecendo às condições que elas impuserem), irão prosperar; as outras, definhar e sumir.

Mas que mal tem isso?, você pode perguntar. Afinal, vivemos no capitalismo, e as telecoms têm direito de cobrar pelo uso das suas redes, nas quais investiram dezenas de bilhões de dólares. Gigantes como Google, Facebook, Amazon e Netflix têm dinheiro de sobra para pagar. Do outro lado, os usuários que quiserem adquirir novos tipos de acesso à internet (como uma conexão que priorize a velocidade dos vídeos, por exemplo) terão acesso a eles. E assim, pela magia da liberdade econômica, a inovação florescerá e todos sairão ganhando. 

Na prática, não será bem assim. Por um motivo simples: o setor de telecomunicações é naturalmente concentrado. Quantas empresas oferecem banda larga na sua rua? Uma, duas, provavelmente no máximo três. Com o celular acontece a mesma coisa, não? É assim porque os investimentos necessários para construir as redes são muito altos, e porque a própria infraestrutura limita o número de players (o espectro eletromagnético só comporta um determinado número de operadoras; os postes das ruas, certa quantidade de cabos). Com poucas empresas competindo, cada uma se torna desproporcionalmente poderosa. Foi por isso que, no começo de 2015, os EUA criaram regras para garantir a neutralidade da rede – um ano depois do Brasil, que em 2014 fizera o mesmo ao aprovar o Marco Civil da Internet. A legislação americana acaba de cair; a do Brasil, bem como a de outros países, deve seguir o mesmo caminho.

E a tendência, como em todos os setores econômicos, é que a concentração aumente. Sabe quando você vê, no noticiário, que duas grandes empresas se fundiram ou uma comprou a outra? Só no ano passado, foram mais de 7.000 fusões e aquisições entre grandes empresas, com valor combinado de US$ 2,4 trilhões. É provável que, daqui a alguns anos, existam ainda menos empresas de telecomunicações do que hoje – e as que sobrarem sejam ainda maiores. 

Google, Facebook, Amazon e Netflix vão fazer acordos com as novas donas da internet. Uns se conformarão em ter menos lucro, outros repassarão o gasto aos usuários (nós). Mas continuarão funcionando, talvez até melhor. O problema é que, daí para a frente, qualquer aplicativo, site ou serviço que for inventado estará imediatamente em desvantagem – porque seus criadores não conseguirão dar tanto dinheiro às telecoms quanto os quatro gigantes. E as pessoas não conseguirão acessar, e usar, aquele app ou site da mesma forma.

Para as startups, a única maneira de sobreviver e ter sucesso será se aliar a um dos quatro. O tráfego (e o faturamento) da rede, que nos últimos anos já foi ficando altamente concentrado, será mais concentrado ainda. Num segundo momento, as telecoms começarão a absorver os próprios produtores de conteúdo, como sites e empresas jornalísticas, num processo de hiperconsolidação (que já está começando nos EUA). Medidas que hoje soam absurdas, como vetar acesso a certas coisas ou restringir a navegação a pacotes de conteúdo, como numa assinatura de tv a cabo, se tornarão plausíveis. Algum tempo depois, serão a norma.

E a internet, que foi projetada para ser imune a qualquer tentativa de controle, terminará nas mãos de meia dúzia de empresas. A rede global descentralizada e indestrutível, criada para resistir até a uma guerra nuclear, terá sucumbido a algo mais prosaico: o desarranjo nas relações entre a política, o dinheiro e o poder.




Fonte: Bruno Garattoni/Super




domingo, 17 de dezembro de 2017

A diferença entre ser professor no Brasil e na Finlândia!


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Neste exótico país em que a polícia não pratica tiro ao alvo com professores, a sistemática política de valorização do magistério produz resultados capazes de espantar até um pitbull da PM: a carreira de professor na Finlândia tornou-se uma das principais preferências entre os jovens, à frente de profissões como medicina, direito e arquitetura.

“O magistério na Finlândia é uma carreira de prestígio”, diz o professor Martti Mery na escola finlandesa Viikki, que também funciona como um centro de treinamento de professores vinculado à Universidade de Helsinque.

“A profissão possui um alto status em nossa sociedade, que tem grande respeito e consideração pelos professores”, ele acrescenta.

A invejável cultura finlandesa de dignidade profissional dos docentes e respeito ao professor foi forjada na revolução educacional conduzida pela Finlândia a partir dos anos 70, que alçou o país para as posições mais elevadas do ranking mundial de desempenho escolar.

A transformação que se produziu incluiu um fator de relevância especial: o nível de excelência dos professores. Todos os programas de formação de professores, que anteriormente eram realizados fora do âmbito do ensino acadêmico superior, foram levados para dentro das universidades, todas elas gratuitas. Mais: obter um mestrado tornou-se a qualificação básica e obrigatória de um professor para poder ensinar nas escolas finlandesas – mesmo na educação pré-escolar.

“No fim dos anos 70, a formação dos professores finlandeses passou a constituir um programa de mestrado com cinco anos de duração, que se dá portanto nas universidades do país. Desde então, gradualmente cresceu entre os professores o sentimento de pertencer a uma categoria profissional altamente educada e prestigiada”, diz o educador finlandês Pasi Sahlberg, um dos arquitetos do chamado milagre finlandês.

A exigência do grau de mestre para os docentes foi uma medida significativa da reforma educacional, observa Sahlberg.

“Isso não só elevou toda a categoria dos professores como profissionais, como passou a dar a eles um profundo conhecimento sobre os mais recentes avanços da pesquisa em suas respectivas áreas de ensino”, ele diz.

Outro aspecto crítico para o sucesso do modelo finlandês foi o desenvolvimento de uma relação de respeito com o professor, e de boas condições de trabalho nas escolas. Como, por exemplo, uma divisão equilibrada do tempo em que um professor necessita trabalhar dentro e fora da sala de aula.

É esta, dizem os finlandeses, a melhor forma de atrair profissionais jovens e talentosos para a carreira de professor nas escolas públicas.

“A experiência finlandesa mostra que o principal é garantir que os professores sejam tratados com dignidade, a fim de que possam concretizar o objetivo de escolher o magistério como a carreira de uma vida inteira”, diz Pasi Sahlberg.

Cursos de doutorado para professores também são disponibilizados, gratuitamente, nas universidades do país. O Estado finlandês investe ainda cerca de USD 30 milhões a cada ano para o desenvolvimento profissional de professores e diretores de escola, através de cursos universitários e programas de reciclagem.

Foi assim, e não tratando professores como bandidos, que os finlandeses criaram uma legião permanente e aplicada de candidatos ao magistério no país.

A carreira de professor tornou-se uma das mais competitivas do país.


A mídia finlandesa divulga regularmente resultados de pesquisas sobre as preferências dos estudantes do ensino secundário, que sistematicamente apontam o magistério entre as profissões mais desejadas.

A cada primavera, milhares de jovens se candidatam a uma vaga para estudar nos departamentos de formação de professores das universidades da Finlândia.

Mas apenas os melhores e mais preparados estudantes podem se tornar professores na Finlândia: no exigente sistema finlandês, apenas cerca de 10% dos candidatos são em geral aprovados para cursar o obrigatório mestrado na universidade.

“A carreira de professor é extremamente popular aqui na Finlândia. Mas os exames de admissão são competitivos a tal ponto, que chegam a intimidar os candidatos. Por isso, nem todos os estudantes que desejam seguir o magistério chegam a se candidatar, por medo da reprovação”, diz Niklas Nikanorov, do Ministério da Educação e Cultura finlandês.

Em 2014, diz Nikanorov, apenas 8,9% dos 7.469 candidatos ao curso de formação de professores da Universidade de Helsinque foram aprovados. No mesmo ano, 1.597 estudantes candidataram-se ao curso de medicina da instituição, e 11,7% foram aceitos.

Sim, é isso mesmo: na Finlândia, o magistério é mais popular que a medicina.

“Do total de 139 mil estudantes universitários em todo o país, mais de 10% estudam ciências educacionais”, acrescenta Niklas Nikanorov.

Para realizar o sonho de se tornar um professor, um jovem finlandês deve ser dono de um robusto currículo escolar – além de obter excelentes notas na prova nacional de conclusão do ensino secundário, e também no exame prestado especificamente para a candidatura ao curso universitário, com perguntas focadas em um amplo conjunto de tópicos educacionais.

Na segunda fase de seleção para o acesso à universidade, os candidatos mais bem colocados da etapa inicial passam por uma série de entrevistas para explicar, por exemplo, porque decidiram se tornar professores. No final, só entram os melhores.

Conquistado o diploma, o professor vai receber um bom salário – mas que se situa dentro da média salarial do país como um todo (3,284 euros, segundo a agência nacional de estatísticas da Finlândia). E na igualitária sociedade finlandesa, assim como na Escandinávia em geral, as diferenças entre os salários não costumam ser exorbitantes.

O salário médio de um professor primário finlandês é de 3,132 euros mensais (cerca de 11,8 mil reais). Professores do ensino médio recebem 3,832 euros, e docentes de universidades ganham em média 4,169 euros por mês (15,7 mil reais).

Vamos comparar: um “käräjäoikeustuomari” (juiz de primeira instância) na Finlândia recebe em média 5,797 euros mensais (cerca de 22 mil reais). Um engenheiro ganha 4,577 euros. Um médico, 7,296 euros. Uma enfermeira, 3,488 euros. O diretor-executivo de uma empresa, 6,755 euros em média.

Um deputado federal brasileiro entraria talvez em estado comatoso ao descobrir o valor do salário de um parlamentar finlandês: 6,355 euros mensais (aproximadamente 24 mil reais) – mas sem direito a verbas indenizatórias ou penduricalhos extras. Isso para viver em um país caro que possui uma das mais elevadas cargas tributárias do mundo, onde o cidadão paga cerca de 51,5% de impostos sobre sua renda.

No Brasil, além do salário de R$ 33,7 mil, um parlamentar recebe ainda o chamado cotão (média de R$ 33.010,31), verba de gabinete para até 25 funcionários (R$ 78 mil) e variados benefícios extras, como ajuda de custo, auxílio-moradia e plano de saúde cinco estrelas. Os privilégios se multiplicam ainda mais na esfera da Justiça, em que o dinheiro dos impostos do cidadão chega a bancar uma obscena Bolsa Educação para pagar escolas particulares para filhos de juízes do Rio de Janeiro.

Enquanto isso, os professores brasileiros estão entre os educadores mais mal pagos do mundo – segundo apontou em 2014 o ranking internacional divulgado pela OCDE a partir de dados dos 34 países membros da organização e dez parceiros, incluindo o Brasil.

O valor do piso salarial dos professores brasileiros: R$ 1.917,78. Para professores da rede pública com diploma de licenciatura no início da carreira, o salário-base médio é de R$ 2.711,48 (excluindo gratificações).

No resto do mundo, países como a Suíça, a Holanda e a Alemanha pagam salários mais altos aos professores do que a Finlândia, apesar de registrarem índices mais baixos de desempenho escolar. No estudo da OECD, a Finlândia aparece em nono lugar na lista dos países que melhor pagam seus professores.

Qual seria então a principal motivação de uma pessoa para se tornar um professor na Finlândia?

“Respeito”, responde o professor Martti Mery, da escola Viikki.

Tal é a confiança nos mestres, que não existe nenhum tipo de avaliação formal do desempenho de professores na Finlândia. O sistema nacional de inspeção escolar, que antes exercia esta função, foi abolido no início dos anos 90.

“Controlar o desempenho do professor não é uma questão relevante na Finlândia. A premissa básica é de que os professores são, por definição, profissionais altamente educados que realizam o melhor trabalho possível nas escolas”, diz o educador finlandês Pasi Sahlberg.

Entregar a liderança do sistema a profissionais da educação também é parte da fórmula do milagre finlandês, observa Pasi Sahlberg.

“Discordamos da visão de que a melhor forma de desenvolver a educação é colocar o controle das escolas nas mãos de administradores sem experiência no setor, na esperança de que um gerenciamento de estilo empresarial vá elevar a eficiência. Na Finlândia, todas as autoridades do setor de educação estão, sem exceção, nas mãos de educadores profissionais”, ele destaca.”

A taxa de sindicalização da categoria é uma das mais altas do mundo: 95% dos professores finlandeses são filiados ao poderoso Opetusalan Ammattijärjestö (OAJ), chamado de “A Voz dos Professores”.

“O modelo finlandês mostra que a colaboração com sindicatos de professores, e não o conflito, produz melhores resultados. As evidências são claras, e é este o caminho a seguir”, diz Pasi Sahlberg, que hoje atua como professor visitante da Universidade de Harvard.






Fonte: Claudia Wallin.

BitCoins - Os perigos por de trás dessa nova febre!


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Há um fenômeno fantástico ocorrendo no jornalismo brasileiro na última semana: virou mania falar das tais Bitcoins. Nesse período, não houve um dia sequer em que nenhum dos canais de TV abordasse o tema.

O motivo desse despertar não é a sede pelo conhecimento nem o bom jornalismo econômico – muito pelo contrário, aliás. O motivo desse despertar é a valorização explosiva dessa moeda virtual, que apenas na última semana foi de 22,8%. O cheiro do dinheiro fácil sempre atrai igualmente especuladores e jornalistas no mercado financeiro.

A superficialidade com a qual esse tema está sendo apresentado ao brasileiro é preocupante. Se até ontem a Bitcoin era apenas um fetiche hacker a ser operado por monitores verde-fósforo, hoje ela se tornou o centro de uma corrida do ouro maluca, uma “oportunidade de investimento” igual a qualquer outra operação financeira.

Enquanto o JN exalta a valorização da Bitcoin em 1.794% em menos de um ano e o SBT Brasil mostra os métodos para quem quer se juntar à onda, a realidade cada vez mais tóxica desse tipo de transação sequer aparece nas reportagens.

O aspecto pantanoso foi denunciado mais recentemente pelo economista Joseph Stiglitz, ganhador do Prêmio Nobel de Economia, à rede americana Bloomberg. Em entrevista, afirmou: “A Bitcoin não serve a nenhuma função socialmente útil, e sem nenhum tipo de regulação por parte do governo, deveria ser proibida. Seu único motivo de sucesso vem de seu potencial para contravenções, falta de fiscalização”.

Stiglitz faz parte de um grupo cada vez maior de economistas preocupados com o futuro das “criptomoedas” – uma ideia genial, em teoria, mas que já indica ser um desastre social na prática. Entender a ideia por trás da febre, mais do que uma boa prática de finanças pessoais, é um dever para quem deseja participar do debate.

Mas o que são, afinal, “criptomoedas”?

A Bitcoin é um “criptomoeda” inventada por um internauta (ou grupo) cujo pseudônimo era Satoshi Nakamoto. A figura misteriosa lançou o conceito em 2008, ajudou a implementá-lo, e desapareceu da Internet em 2011.

Sua proposta originou a primeira entre 1.358 unidades monetárias digitais, todas unidas pelo mesmo objetivo: o de usar a Internet para desviar de qualquer tipo de controle monetário governamental.

Há duas características fundamentais que garantem esse objetivo: primeiro, a não-existência de manifestação física dessas moedas; segundo, a natureza criptográfica de todas as transações.

O que valida a existência da moeda é uma gigantesca planilha que detém o conjunto de todas as operações já feitas, que é constantemente atualizada por milhares de servidores anônimos ao redor do mundo. Cada transação só se torna válida depois que cada um desses servidores a autoriza em seu próprio bloco de operações, e o “bloco” é ligado à “corrente” com as informações anteriores.

Daí vem o nome “block chain” (“corrente de blocos”) – bastante óbvio, diga-se de passagem.

Esse desenho estrutural distribuído confere ao blockchain um poderosíssimo freio contra fraudes, que vem sendo adotado de forma positiva para outros propósitos, como controlar estoques em grandes supermercados, analisar o tráfego e até pelo próprio sistema bancário norte-americano. Mesmo que um servidor tenha seu banco de dados adulterado, milhares de outros o corrigirão instantaneamente.

A parte da “contravenção” a que Stiglitz se refere se dá pela criptografia pesada sobre as informações do blockchain. Depois que um bloco é fechado e assimilado pela rede, uma complexa operação matemática esconde o registro público para sempre. Beira o impossível descobrir quem comprou o quê, e quando.

Do lado do usuário, a segurança contra fraudes se dá pela atribuição de uma chave digital exclusiva, tão complexa que exigiria de supercomputadores semanas de processamento para desvendar.


Nesse ponto mora, simultaneamente a maior virtude e o maior vício das criptomoedas: se por um lado esse sistema evita que o dinheiro virtual seja duplicado, por outro remove qualquer tipo de controle humano sobre o que está acontecendo na planilha. É um terreno fértil para o banditismo. Não à toa, a crescente adoção dessa ferramenta tem sido associada a práticas de lavagem de dinheiro e tráfico de drogas na Deep Web, e foi proibida em países como Coreia do Sul e China.

A automação implacável abrange inclusive a própria geração de novas moedas. Para que novas Bitcoins sejam emitidas, é necessário que um servidor feche um bloco e acrescente-o à corrente. Isso acontece a cada 10 minutos, 24 horas por dia, e garante 12,5 novas moedas à máquina que fechar a operação mais rapidamente. Esse ritmo diminui pela metade a cada 4 anos “para que a moeda possa valorizar”.

Aos derrotados, o sistema confere pequenas taxas de verificação por validar os blocos.

O maior esquema de pirâmide (e a maior bolha) do mundo

Tentar explicar essa gincana matemática é suficiente para confundir qualquer cidadão. E, nessa confusão, os próprios jornalistas acabam perdendo o foco. A grande dúvida hoje, segundo os noticiários, é se o Bitcoin é ou não uma bolha financeira.

A resposta para essa pergunta é SIM.

Nas palavras de outro Prêmio Nobel de Economia, Robert Shiller, “a Bitcoin é neste momento o melhor exemplo [do que deveria ser uma bolha]. Uma grande história com um bom grau de mistério e que se encaixa às agonias de seu tempo, que dá às pessoas um senso de empoderamento diante de um novo mundo digital”.

Por trás do entusiasmo juvenil tão bem descrito por Shiller, esconde-se a pergunta que os economistas reais estão se fazendo: POR QUE, afinal, a Bitcoin chegou ao patamar de 17.950 dólares por unidade? Como pode uma moeda se valorizar quase 2.000% em um ano?

Não há como dourar a pílula – uma criptomoeda não representa nada, não tem endereço físico, não tem autoridade nenhuma sustentando seu valor, não é regulamentada. Não há como comprar um pão ou encher o tanque com ela. Não há valor subjacente, não há forma de controle.

A valorização só decorre, portanto, da própria adoção da Bitcoin, que é motivada pela expectativa de que ela se valorize ainda mais. Foi essa observação que levou o presidente do Banco Central do Brasil, Ilan Goldfajn, a chamar a moeda de “esquema de pirâmide” na última quarta-feira (13).

Não é exagero. Criptomoedas não têm qualquer liquidez. A única forma de uma pessoa recuperar o investimento é convencer outra pessoa a comprar sua moeda com dinheiro real. Nesse sentido, Bitcoins não são diferentes de caixas de suplemento alimentar ou de produtos de beleza que acabam encalhados nas garagens dos desavisados. É um produto indesejado, cujo valor está exclusivamente na projeção de valorização no ato de venda.

O caráter de pirâmide fica evidente nas interações dentro das comunidades que hoje debatem as criptomoedas pela Internet. Nos sites especializados, há um fanatismo quanto às benesses da Bitcoin que beira o culto religioso. Qualquer questionamento é recebido com agressividade, pois, como já houve um investimento monetário real por parte dos participantes, críticas são vistas como ameaças à realização do lucro.

A comparação com o mercado de ações, muitas vezes utilizada pelos defensores das moedas virtuais, carregam uma falha fundamental: ao contrário de empresas reais, que participam da atividade econômica e estão integradas na matriz produtiva de um país, uma criptomoeda existe exclusivamente em caráter simbólico.

Falar de crimes virtuais e perdas pessoais dos envolvidos com as criptomoedas, entretanto, é apenas o aspecto imediato dessa discussão. Há uma face mais profunda e muito mais perigosa em toda essa história, que é a perda de controle monetário por parte dos governos.

Vale retomar a proposta inicial da Bitcoin: uma moeda acima de qualquer ente regulatório. Esse ideal ultraliberal nasce de uma concepção infantil de economia, que vê na interferência dos bancos centrais a causa das crises econômicas. Para Satoshi Nakamoto, em seu artigo de origem da moeda, a grande panaceia seria a eliminação completa do ser humano das decisões monetárias, substituído por um protocolo fora de contato com a realidade.

É apenas uma reembalagem do conceito surrado do “livre mercado”, portanto – algo que já deveria estar morto depois de 2008, quando justamente a ausência de regulamentos disparou a maior crise econômica da qual se tem notícia.

Ao vincular a criação de novas moedas com o fechamento dos blocos, a Bitcoin tenta forçar um controle que separa o dinheiro da economia real que ele deveria representar.

O que é o dinheiro, afinal? Apenas uma ferramenta para distribuir a produção de um país, nada mais. O que dá valor às cédulas e números bancários no Brasil, na China ou em qualquer outro lugar não é a quantidade de moedas disponível, e sim a equivalência entre ela e o PIB.

Tentar engessar matematicamente a emissão de novas moedas até o ano 2140, como propõe o protocolo Bitcoin, é de uma arrogância inacreditável. Há uma infinidade de fatores que interferem a todo momento no volume de moedas que um país deveria ter – daí a necessidade de bancos centrais, e comitês monetários, e reuniões intermináveis com linguagem chata.

Pior ainda: conforme a produção de Bitcoins cair, como planejado, haverá um abismo crescente entre a quantidade de moedas disponíveis e o valor que elas deveriam representar. Isso forçará as pessoas a fracionarem cada vez mais as moedas, diminuindo o preço dos produtos por pura escassez monetária e induzindo um quadro deflacionário preocupante.

Em um quadro de deflação, há uma tripla tragédia sobre o trabalhadores: primeiro, as empresas perdem receita; depois, acabam demitindo parte de seus funcionários para não entrarem no vermelho; com isso, diminuem a capacidade geral de consumo, forçando os preços gerais ainda mais para baixo. E começa de novo o ciclo.

Do outro lado, os ricos recebem incentivo real para deixar dinheiro parado. Como a mesma moeda vale cada vez mais com o tempo, faz mais sentido guardá-las debaixo do colchão do que empregá-las em alguma coisa. A concentração primitiva vira regra.

Em meio a tudo isso, os governos estariam acorrentados pelo protocolo monetário do blockchain. Quanto mais pessoas aderissem às criptomoedas, mais refém estaria o conjunto da sociedade diante do protocolo automatizado, que só pode ser alterado se o conjunto dos maiores servidores votar em massa pela alteração do código-fonte – coisa que, em um cenário deflacionário, jamais fariam, pois perderiam muito dinheiro.

Talvez esse seja o aspecto mais perverso dessa situação-limite: os donos dos servidores se tornariam donos da economia. As interferências desse pequeno clube se disfarçariam de tecnicalidades, e o resultado seria uma concentração de renda brutal.

Uma briga que vai longe

Há ainda muitos problemas que poderiam ser colocados contra a Bitcoin, e que ainda carregarão essa discussão por muito tempo. É preciso questionar a hiperconcentração de servidores nas mãos de pouquíssimos grupos chineses, assim como as recorrentes brigas que acabam na criação de moedas paralelas e o caráter autoritário de distribuir as novas moedas para quem já tem máquinas poderosas.

É fundamental corrigir o baixíssimo limite de transações por segundo da rede, e regular os preços cada vez mais altos cobrados para operar cada transação. Isso sem falar no consumo de eletricidade estratosférico associado à “mineração” de novas moedas, que já supera o de 159 países e não para de crescer.

São muitos problemas. E não há sinal de resolução.

O que impressiona, diante desse quadro, é assistir ao Jornal Nacional repetir, cada dia mais seguro, que a Bitcoin “é uma forma de investimento que está ganhando o mundo”, mesmo com a profusão de armadilhas espalhadas pelo caminho.

Não podemos continuar fingindo que as criptomoedas não terão consequências reais. A discussão não pode estar limitada a uma brincadeira de cassino.





Fonte: RENATO BAZAN/DCM

segunda-feira, 3 de julho de 2017

Jejum Intermitente - Isso Funciona mesmo?


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Sabrina Sato passou 14 horas sem comer para estar em forma no Carnaval. A atriz Deborah Secco chegou a ficar 23 horas em jejum para perder o peso que ganhou na gravidez. Passar alguns períodos de tempo sem comer é visto com bons olhos por nutricionistas e especialistas da área, que têm sugerido aos seus pacientes períodos de jejum intermitente, seja para perder peso, realizar um detox e até mesmo para ter uma melhor qualidade de vida.

Especialista em nutrição otimizada, Rodrigo Polesso não considera o jejum uma dieta, já que a prática não envolve alimentos. Segundo ele, a primeira mudança visível após aderir é a perda de peso: “Só o fato de a pessoa não ingerir nada já é o suficiente para emagrecer”, diz ele. “O outro motivo que contribui para a queima de gordura e consequente perda de peso é que o jejum regulariza os níveis de insulina no sangue, hormônio que armazena gordura.” Polesso explica que praticar jejum intermitente baixa a insulina e abre o acesso para outros hormônios, como glucagon, cortisol e adrenalina, queimarem  a gordura.

O especialista afirma que uma das vantagens do jejum é que a queima de gordura ocorre sem a perda da massa muscular, também conhecida como massa magra. “A massa é mantida porque o jejum eleva o hormônio do crescimento e isso previne qualquer queima de músculo”, diz ele. Polesso explica que o músculo é um tecido metabolicamente ativo, ou seja, ele consome energia e caloria somente por existir. “Perder massa muscular não é adequado para o processo de emagrecimento.”

Outra consequência do jejum intermitente é que o metabolismo basal também não desacelera, como muitos pensam. “O metabolismo basal gasta a quantidade de calorias no dia que uma pessoa precisa para manter o mesmo peso. As pessoas acham que não comer vai desacelerar o metabolismo, ou seja, você vai queimar menos calorias. Mas um estudo mostrou que ele continua acelerado até em jejuns bastante longos.”

QUAL O TEMPO IDEAL?
Para o jejum começar a fazer efeito e a trazer benefícios, Polesso afirma que é preciso ficar mais de 12 horas sem comer. Ele costuma indicar o protocolo 16/8, no qual o paciente permanece 16 horas em jejum e faz todas as refeições no período de 8 horas, mas existem pessoas que ficam até 24 horas sem se alimentar. “Quem costuma jantar às 20h, por exemplo, pode pular o café da manhã no dia seguinte e almoçar às 12h", explica. "O paciente ficará 16 horas sem comer, incluindo o tempo em que estiver dormindo.”

Polesso afirma ainda que não é necessário jejuar todos os dias. "Você deve incluir essa pratica em sua rotina da maneira que achar mais conveniente", diz. "O paciente pode ficar em jejum uma, duas ou três vezes na semana, dependendo de seu estilo de vida e de seus objetivo.”


JEJUM + ALIMENTAÇÃO SAUDÁVEL
Se o objetivo de jejuar for emagrecer, é importante ter uma alimentação saudável no restante no dia. Se o paciente enfiar o pé na jaca, não adianta ficar horas sem comer. “Criei um conceito chamado alimentação forte para mostrar para as pessoas o que é, de fato, uma alimentação saudável baseada na ciência", fala Polesso. "É necessário excluir da dieta alimentos processados, refinados, açúcares e as gorduras ruins, como óleos vegetais de milho, canola e soja, encontrados na margarina, por exemplo.”

Em alguns casos, o especialista aconselha corrigir a alimentação antes de fazer o jejum intermitente. “Há pessoas que se alimentam de maneira incorreta há muito tempo e, quando começam a jejuar, se sentem para baixo, com fome e acabam condenando o método. Mas a culpa, nesses casos, é da alimentação. Antes do jejum ou ao mesmo tempo, é preciso adotar hábitos saudáveis.”

AUTOFAGIA
Outro benefício proporcionado pelo jejum é a autofagia - a reciclagem das células mortas -, tema que garantiu o prêmio Nobel de Medicina e Fisiologia ao cientista Yoshinori Ohsumi em 2016. O pesquisador japonês estudou o processo de reciclagem das células quando a pessoa está em jejum. “Pode-se dizer que é uma espécie de ‘limpeza’ para se certificar de que o corpo está funcionando bem”, afirma Polesso.

Ohsumi descobriu que os problemas nesse mecanismo estão ligados diretamente ao surgimento de doenças como o mal de Parkinson e a diabetes tipo 2. "Assim, pode-se dizer que o jejum intermitente beneficia a saúde, prevenindo doenças que chegam com o envelhecimento e promovendo a longevidade."

MUITO LÍQUIDO
Durante o jejum, é preciso manter-se superhidratado. Por isso, alguns líquidos são permitidos. "Água com e sem gás, chá e café sem adoçante ou açúcar, e o consumo de gorduras puras [óleo de coco, por exemplo] não quebram o jejum", explica Polesso. "Jejuar fica mais fácil com a ingestão de líquidos.”

Gorduras puras como manteiga e óleo de coco podem ser adicionadas ao café, pela manhã, para ajudar na sensação de saciedade durante o jejum. "Mas não pode exagerar caso o objetivo seja perder peso”, alerta o especialista. "O paciente não deve tomar óleo de coco e manteiga em excesso porque o corpo irá queimar essa gordura antes de queimar a do próprio corpo. Tudo tem que ser ponderado. O ideal mesmo é beber o líquido puro."



Fonte: Paula Melo/Marie Claire


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sábado, 1 de julho de 2017

Importar - Você também pode!


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Você sabia que é possível ganhar muito dinheiro com vendas de produtos importados? Pois saiba que muitos brasileiros já estão conseguindo ficar ricos apenas com os lucros de produtos que compraram do exterior. Você também pode conseguir saber como importar barato.

Com a era da internet muitas pessoas aproveitam para ganhar o seu sustento mensal. A globalização não deixa barreiras entre as pessoas, o que faz com que você possa comprar produtos da China, dos EUA  e até mesmo de países mais distantes.

Como os produtos e bens de consumo no Brasil são muito mais caros do que em qualquer outro lugar, a grande febre do momento é aprender a como importar barato. É possível vender produtos de boa qualidade com preços menores do que no Brasil e ainda sair ganhando com isso!

Pensando em ajudar você a conseguir saber como importar barato, resolvi te dar algumas dicas de quem já trabalha com isso. Se você acompanhar o passo a passo e começar a fazer as suas comprar no exterior, tenha certeza de que o seu lucro será garantido!

Acompanhe a seguir e veja quais são os melhores locais para fazer compras, quais sites são seguros e quanto de dinheiro você precisa investir. Depois que você souber como importar barato a sua vida nunca  mais será a mesma. É possível ter uma boa renda extra!

Sites confiáveis para importação

Existem alguns sites que são mais confiáveis do que outros para você começar a fazer as suas importações. Você pode começar com os dois sites apresentados abaixo. Os preços são favoráveis e não é preciso iniciar com um grande investimento.

Ali express
Este é o melhor site para quem quer importar da China. Lá você vai encontrar todas as coisas que puder imaginar. Desde roupas, calçados até mesmo acessórios para homens e mulheres.

Na verdade este site é uma junção de vários vendedores da China que anunciam os seus produtos. Para conseguir comprar basta que você possa colocar as suas informações e entrar em contato com o vendedor.

Uma dica interessante para quem está começando, é sempre olhar e analisar a reputação do vendedor. Os compradores sempre avaliam o vendedor logo abaixo do produto que você está interessado.

Dê preferencia para produtos que já foram vendidos em larga escala. Isso garante a sua segurança e a certeza de que irá receber os produtos em sua casa.

IHerb
A moda do momento é cuidar da própria saúde. Por isso, este site americano traz a possibilidade de você conseguir comprar suplementos alimentares por preços acessíveis e ainda vender recebendo um grande lucro.

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sexta-feira, 9 de junho de 2017

Porque o Brasil e o Julgamento da Chapa Dilma-Temer é uma piada!

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No meio jurídico em que convivo é nítida a sensação de profundo tédio e preguiça mental do teatro de quinta categoria que está em cartaz no Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Há dias, ministros fingem que debatem e julgam e a gente finge que o julgamento tem o mínimo de seriedade. Se você também estiver com essa sensação e ainda não souber entender o porquê, vou explicar algumas coisas para auxiliar-te a desenhar nitidamente as razões pelas quais o julgamento é uma farsa.

Vou recorrer a palavra farsa para designar essa ação várias vezes ao longo do texto. Vou explicá-la por casos concretos: Aécio Neves, autor da ação, afirmou que só entrou com o pedido para encher o saco. A ação chegou a ser arquivada pela fraca acusação baseada em alegações genéricas (seria como dizer: a Chapa roubou sem apontar o que, quando, onde, como, etc) e somente foi desarquivada no auge do movimento pelo impeachment por ninguém mais, ninguém menos, que Gilmar Mendes. O julgamento já era para ter acontecido, mas foi adiado para haver uma troca de dois juízes. A chapa do PSDB está tão ou mais envolvida no abuso na campanha eleitoral quanto a do PT/PMDB, os quais se defendem juntos agora, mas se o contexto político atual fosse diferente, não hesitariam em mudar seus papéis de palhaços nesse circo.

Explicada a farsa sob a qual o processo está montado, começarei pelos ministros que estão no julgamento. Penso que é importante para entendermos aquele ditado antigo “da onde menos se espera, é daí que não sai nada mesmo”. São 7 ministros que estão no julgamento. Desses, dois deles são ministros do STF que protagonizaram inúmeros episódios pitorescos. O primeiro, Gilmar Mendes, quase dispensa comentários, por estar às claras na mídia sendo o garoto propaganda da falência do Poder Judiciário. Sua amizade íntima com o réu que será julgado, sua baba de raiva que escorre pela boca toda vez que ouve alguém dizer “PT” e sua falta de vergonha de ser um parlamentar tucano numa corte que pretende, em tese, ser de juristas dão um pouco da mostra de incapacidade dele ser ministro.

Já Luiz Fux é mais desconhecido do público em geral, mas basta dizer da sua íntima relação com o PMDB do Rio de Janeiro, o qual destruiu o Estado pelo tanto de patrimonialismo na gestão; o episódio do “peito de aço”, isto é a promessa pela absolvição de acusados no mensalão que teria sido feito a Dilma para ele próprio ser indicado ao Supremo (e o pior de tudo: condenou todos, virando as costas para o que foi combinado na palavra, à lá Ali Baba), bem como suas liminares de prejuízo em bilhões para a população pagar a mordomia ilegal da magistratura e a campanha de lobby para indicação da filha com 35 anos para ser desembargadora do TJ-RJ. A menina tinha a mesma experiência jurídica de uma quintoanista boêmia da faculdade, mas isso não impediu o papi de intimidar diversas pessoas para que ela fosse indicada. Meritocracia pura.

Têm outros dois que ninguém conhece – Tarcísio Vieira e Admar Gonzaga, muito prazer – pois Michel Temer, réu na ação, conseguiu colocar os caras lá por conta de um risível adiamento por pedido de vista, estratégico para sensível troca de quadro no julgamento. Saíram os ministros Henrique Neves e Luciana Lóssio e entraram esses dois pelas mãos do acusado. Diga-me se isso não é uma piada: 2 substituições pelo réu em um universo de 7 juízes. Olha, não sou muito bom de matemática, mas deve ser algo próximo de 30% de influência extra da presidência no time. Tem coisas que acontecem só no Brasil, mesmo. Fala sério.

Além desses quatro, muitas pessoas puderam conhecer o Napoleão Nunes Maia, o qual tem o privilégio de ser desconhecido pois poucas pessoas se importam com o STJ, onde ele ministro, apesar de sua enorme relevância e do bilionário custo para os cofres públicos. Napoleão mostrou-se a todos como o cão de guarda de Temer e Gilmar no julgamento, prestando-se a um papel ridículo. Sem problemas absolver, desde que não seja para fazer oba-oba com o ridículo e a desfaçatez de quem tem a sanha punitivista em um segundo (quando é Dilma no cargo, basicamente) e no outro vira o maior garantista que vocês respeitam (quando Temer está no cargo).



Sobram Rosa Weber e Herman Benjamin, os quais dedicarei um tempo contigo para explicar onde está a piada, pois eles têm o mérito de, pelo menos, parecerem honestos, o que já é um trunfo no tribunal. Por isso, muitas pessoas têm idolatrado Herman e suas alfinetadas em Gilmar – vamos falar sério, nada é mais fácil do que expor o podre de Gilmar. É tudo tão explícito que criticá-lo por suas falhas éticas é como empurrar bêbado pela ladeira. Gilmar só não cai em desgraça por conta da benevolência da classe política e da mídia em geral, incluindo a jurídica, com ele (daí vocês podem se perguntar as razões dessa benevolência, o que fica para outro artigo).

Voltando aos dois juízes que têm o mérito de parecerem decentes, ao contrário dos demais, ainda assim a piada persiste, pois eles são, no mínimo, iludidos em seu conteúdo por tentar emprestar alguma credibilidade jurídica a um processo farsesco desde o primeiro segundo. Como explica a produtora cultural, Ísis Vergílio, no teatro existe um conceito chamado de representação sincera. Seria algo como a interpretação compenetrada do ator ou atriz na peça, que passa a acreditar no seu papel. Rosa e Herman parecem acreditar que, de fato, estão fazendo algo próximo de ser juiz naquela farsa, o que chega a ser um pouco engraçado, mas ao mesmo tempo deprimente.

Mas o pior nem é isso. São iludidos que estão pela moralidade e condenam a chapa com base em conceitos absolutamente ultrapassados e autoritários, como a busca da verdade real, que permite que provas que não foram objeto de discussão na ação e na contestação se tornem centrais para condenar. A falta de ligação entre acusação e sentença, que admite, inclusive, uso retórico de delações feitas quando o caso estava pautado para ser julgado torna o processo mais próximo de uma discussão de botequim do que de uma corte superior propriamente dita. Ou seja, até quem condena e tem se portado como se espera de ministro, falha miseravelmente.

Dito isso, talvez você entenda melhor porque é impossível levar esse julgamento a sério.







Fonte:  BRENO TARDELLI





sábado, 27 de maio de 2017

Brasil - Agora tem corruptores!

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Agora que estávamos nos acostumando à figura do corrupto —afinal, há séculos convivemos com ele—, eis que surge um novo animal na floresta: o corruptor. E em alto estilo: enorme, viscoso, tentacular, falando de cifras com que nunca sonhamos e com uma naturalidade que escancara para nós, de repente, toda a nossa inocência.

Com que, então, os milhões e bilhões que só conhecíamos por ouvir falar existem de verdade e não como papéis simbólicos, trocados por bancos e governos. Apesar do volume, são moeda corrente entre pessoas reais e circulam em malas, mochilas, meias e depósitos no Exterior, ou na forma de barcos, joias, sítios, tríplexes, aeroportos. A cada denúncia, os montantes têm sido de tal ordem que nos arriscamos a ficar blasés: "Mas como, tanto barulho por R$ 5 milhões? Ainda se fossem dólares...".

Enfim, se o corrupto não é novidade, nada mais fascinante nos últimos tempos do que nos defrontarmos com o corruptor —o que nos tem sido oferecido à larga pelas gravações da Lava Jato. Desse espetáculo, que supera qualquer reality show, pode-se inferir algo sobre a personalidade de ambos.

O corruptor tem desprezo pelo corrupto. Olha-o de cima para baixo, trata-o pelo primeiro nome ou pelo diminutivo, ignora a liturgia, marca local, dia e hora da visita ou chega sem avisar —claro, se é ele quem paga as contas, presta-se gostosamente aos achaques e compra políticos como se fossem bananas. O corruptor vai às compras com uma longa lista: transferências de fundos públicos, medidas provisórias, primazia em concorrências, isenção de impostos, empréstimos em bancos oficiais. O corrupto avia esses pedidos e, em troca, leva o seu. Mas o ganho do corrupto é pinto se comparado ao do corruptor.

Desprezado pelo corruptor, só resta ao corrupto, em troca, nos desprezar.





Fonte: Ruy Castro